2Endereço para correspondência: Marisa Matias Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto Rua Alfredo Allen CEP 4200-135. Porto, Portugal E-mail: marisa

Ter filhos é uma decisão influenciada por vários fatores. O objetivo deste estudo foi descrever a construção e validação de um instrumento em língua portuguesa para análise dos motivos subjacentes à decisão de ter ou não ter filhos. A Escala de Motivos face à Parentalidade, construída com base numa revisão de estudos e escalas pré-existentes, foi administrada a duas amostras e alvo de análise fatorial exploratória e confirmatória. A escala final é composta por 30 itens divididos em quatro fatores: Enriquecimento Emocional, Reconhecimento Social, Interferência no Estilo de Vida e Antecipação de Problemas de desenvolvimento na criança. Todas as subescalas apresentaram bons índices de consistência interna e boa estabilidade fatorial. Considera-se que a escala aqui apresentada poderá contribuir para uma melhor compreensão da temática da decisão de ter ou não filhos.

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escalas; motivação; fertilidade; tomada de decisão; crianças


Tener hijos es una decisión influenciada por varios factores. La finalidad en este estudio fue describir la construcción y validación de un instrumento en lengua portuguesa para el análisis de una categoría de factores, los motivos subyacentes de la decisión de tener hijos o no. La Escala de Motivos ante la Parentalidad, construida con base en una revisión de estudios y escalas pre-existentes, fue administrada a dos muestras y sometida al análisis factorial exploratoria y confirmatoria. La escala final está compuesta por 30 ítem, divididos en cuatro factores: Enriquecimiento Emocional, Reconocimiento Social, Interferencia en el Estilo de Vida y Antelación de Problemas en el desarrollo del niño. Todas las sub-escalas alcanzaron buenos índices de consistencia interna y buena estabilidad factorial. Se considera que la escala presentada podrá contribuir a una mejor comprensión sobre la temática de la decisión de tener hijos o no.

escalas; motivación; fertilidad; toma de decision; ninos


To have a child is considered to be a decision influenced by several factors. This paper describes the process of development and validation of an instrument in Portuguese language to analyze the motives underlying this decision. The Motives toward Parenthood Scale was developed using a revision of previous studies and instruments. Exploratory and confirmatory factor analyses were performed using different samples. The final scale is composed of 30 items and 4 factors: Emotional Enrichment, Social Recognition, Lifestyle Interference and Anticipation of Problems in the development of the child. All subscales showed good internal consistency and good factorial stability. This instrument is expected to allow for a more comprehensive analysis of the decision to have a child.

scaling (testing); motivation; fertility; decision making; children


Motivações face à Parentalidade

Numa perspectiva cronológica, um dos primeiros estudos a referir é o estudo intercultural de Hoffman e Hoffman (1973Hoffman, L. W., & Hoffman, M. L. (1973). The value of children to parents. In J. T. Fawcett (Ed.), Psychological perspectives on population (pp. 19-76). New York: Basic Books.) acerca dos valores das crianças. Os autores desenvolveram uma conceitualização de nove objetivos que os filhos poderiam ajudar a alcançar, dos quais os principais eram: laços afetivos primários; estimulação e gozo; expansão do self; obtenção de estatuto e identidade adulta; e sentimentos de competência e criatividade. Estes valores têm subjacente uma ideia instrumental da criança e podem ser agrupados em três categorias: recompensas sociais (obtenção de estatuto de adulto e conformidade a normas sociais); emocionais/psicológicas (sentimentos de competência, desenvolvimento pessoal, melhor qualidade da relação conjugal) e econômicas (os filhos podem ser cuidadores mais tarde dos próprios pais) (Liefbroer, 2005Liefbroer, A. C. (2005). The impact of perceived costs and rewards of childbearing on entry into parenthood: Evidence from a panel study. European Journal of Population, 21(4), 367-391. doi:10.1007/s10680-005-2610-yhttps://doi.org/10.1007/s10680-005-2610-... ; O"Laughlin & Anderson, 2001O"Laughlin, E. M., & Anderson, V. N. (2001). Perceptions of parenthood among young adults: Implications for career and family planning. American Journal of Family Therapy, 29(2), 95-108. doi:10.1080/01926180152026098https://doi.org/10.1080/0192618015202609... ). Fawcett (1988Fawcett, J. T. (1988). The value of children and the transition to parenthood. In R. J. Palkovitz & M. B. Sussman (Eds.), Transitions to parenthood (pp. 11-34). New York: Haworth.) na mesma linha de estudo sumariza os resultados desta abordagem referindo que as recompensas mais importantes de ter um filho são de natureza psicológica enquanto os maiores custos são de natureza financeira e perdas de oportunidades relacionadas com a carreira. Distingue assim cinco categorias de custos: econômicos diretos (alimentação, vestuário, educação); relacionados com o salário (em particular no caso feminino); custos de oportunidade (perda de tempo livre e atividades de lazer); custos psicológicos (restrição de liberdade, perda de flexibilidade, mais preocupações) e custos físicos (tarefas associadas ao cuidar de um filho).

Estas duas abordagens clássicas evidenciaram por um lado, as recompensas ou motivações para se ter um filho, nomeadamente a abordagem de Hoffman e Hoffman (1973Hoffman, L. W., & Hoffman, M. L. (1973). The value of children to parents. In J. T. Fawcett (Ed.), Psychological perspectives on population (pp. 19-76). New York: Basic Books.) e por outro lado, segundo Fawcett (1988Fawcett, J. T. (1988). The value of children and the transition to parenthood. In R. J. Palkovitz & M. B. Sussman (Eds.), Transitions to parenthood (pp. 11-34). New York: Haworth.) os custos ou motivos para não se ter um filho. Contudo, ambas as conceitualizações foram derivadas num contexto social bastante diferente do actual, nomeadamente a justificação para a elaboração destas conceitualizações assentou na preocupação com o aumento da população. Procurava-se assim clarificar qual o valor dos filhos para que se pudessem encontrar alternativas a estes valores e assim reduzir a intenção de ter um filho.

Num contexto cultural distinto, Scavone (2001Scavone, L. (2001). Maternidade: Transformações na família e nas relações de gênero. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, 5(8), 47-59. doi:10.1590/S1414-32832001000100004https://doi.org/10.1590/S1414-3283200100... ) procurou sistematizar teoricamente as razões associadas à opção de ter filhos, destacando causas biológicas patentes no desejo de reprodução da espécie ou continuidade da própria existência; causas subjetivas como a busca de um sentido para a vida, a necessidade de uma valorização e reconhecimento social, o amor pelas crianças e a reprodução tradicional do modelo de família de origem e ainda fatores sociais, como as condições econômicas e culturais das famílias, bem como os projetos e possibilidades profissionais. No entanto, este modelo careceu de dados empiricos para a sua sustentação.

Mais recentemente e de forma mais sucinta, Liefbroer (2005Liefbroer, A. C. (2005). The impact of perceived costs and rewards of childbearing on entry into parenthood: Evidence from a panel study. European Journal of Population, 21(4), 367-391. doi:10.1007/s10680-005-2610-yhttps://doi.org/10.1007/s10680-005-2610-... ) baseando-se em algumas teorias de fertilidade, derivou uma lista de cinco possíveis custos e recompensas que considerou serem os mais relevantes. Assim, identificou as oportunidades de carreira, o poder econômico, o sentimento de segurança, a relação com o parceiro e a autonomia individual como possíveis impactos de ter um filho. Este estudo, apesar de partir de orientações teóricas estabelecidas e usar uma amostra significativa (1204 participantes) e heterogénea em termos de sexo, limitou a análise de custos e benefícios às cinco razões previamente apontadas.

Os estudos referidos até o momento são fundamentalmente dedutivos, isto é partem de uma conceitualização teórica e alguns procuram a validação empirica posterior. Contudo, uma outra possibilidade é a de analisar empiricamente os custos e beneficios partindo de um grande número de itens sobre os potenciais custos e benefícios e procurar dimensões latentes através da análise fatorial ou outras técnicas de redução de dados. Esta abordagem foi a seguida por Seaver et al., (1990Seaver, W., Kirchner, E., Straw, M., & Vegega, M. (1990). Parenthood motivation questionnaire. In C. A. Beere, Gender roles: A handbook of tests and measures (p. 290-292). Westport, CT: Greenwood.) que, no sentido de evitar os julgamentos apriorísticos presentes nas anteriores conceitualizações derivadas teoricamente, desenvolveram de forma empírica a escala Parenthood Motivation Questionnaire através de um procedimento de análise fatorial. Contudo, estas análises foram efetuadas nos anos 70, o que indica que os motivos sinalizados com esta escala poderão não se adequar ao contexto atual.

Mais recentemente, O"Laughlin e Anderson (2001O"Laughlin, E. M., & Anderson, V. N. (2001). Perceptions of parenthood among young adults: Implications for career and family planning. American Journal of Family Therapy, 29(2), 95-108. doi:10.1080/01926180152026098https://doi.org/10.1080/0192618015202609... ), também de forma empírica, e com base em itens já usados em investigações prévias, analisam motivações intrínsecas e extrínsecas e custos e recompensas associados ao nascimento de um filho. Estudaram uma amostra de estudantes universitários, maioritariamente mulheres (73%) e sem filhos (85%). As motivações intrínsecas dizem respeito a crenças internas acerca dos valores e aspectos morais de ter um filho, bem como aspectos emocionais; enquanto as motivações extrínsecas relacionam-se com a utilidade económica e de estatuto social de ter um filho. Os custos referem-se à perda de oportunidades, liberdade e tempo enquanto os benefícios referem-se a aspectos emocionais e de crescimento pessoal. Este estudo, apesar de considerar vários custos e benefícios, centrou-se apenas numa amostra de mulheres estudantes universitárias e sem filhos, limitando a compreensão do fenômeno dos motivos face à parentalidade em outros grupos e contextos.

Em português, é possivel destacar o estudo de Cunha (2007Cunha, V. (2007). O lugar dos filhos: Ideais, práticas e significados. Lisboa, Portugal: Imprensa de Ciências Sociais.) com 1776 mulheres entre os 25-49 anos a viver em conjugalidade e com pelo menos um filho co-residente entre os seis e os 16 anos. Este estudo evidenciou seis grupos de razões para as famílias com um só filho não terem um segundo filho: constrangimentos materiais (dificuldades econômicas, de alojamento, desemprego); constrangimentos com o filho (relacionados com o crescimento do filho); equilíbrio numérico (número considerado ideal para garantir o bem-estar da família); constrangimentos pessoais e relacionais (idade avançada, falta de saúde, perturbação da relação de casal); preferência subjetiva (gostar de um filho único); e dinâmica familiar ou parental (desejo de dedicação total a um filho). Neste mesmo estudo a autora evidenciou ainda quatro possíveis funções dos filhos: função instrumental, expressiva, estatuária e afetiva. Embora alargado, o estudo de Cunha centrou-se na análise dos casais com filhos e das funções dos filhos para as mulheres, descurando quer a perspectiva dos individuos sem filhos, quer o papel dos homens neste processo.

Os estudos acerca dos motivos subjacentes à decisão de ter filhos aqui apresentados evidenciam abordagens distintas: abordagem dedutiva no caso das conceitualizações terem sido desenvolvidas teoricamente com validação empírica posterior (Hoffman & Hoffman, 1973Hoffman, L. W., & Hoffman, M. L. (1973). The value of children to parents. In J. T. Fawcett (Ed.), Psychological perspectives on population (pp. 19-76). New York: Basic Books.; Fawcett, 1988Fawcett, J. T. (1988). The value of children and the transition to parenthood. In R. J. Palkovitz & M. B. Sussman (Eds.), Transitions to parenthood (pp. 11-34). New York: Haworth.; Liefbroer, 2005Liefbroer, A. C. (2005). The impact of perceived costs and rewards of childbearing on entry into parenthood: Evidence from a panel study. European Journal of Population, 21(4), 367-391. doi:10.1007/s10680-005-2610-yhttps://doi.org/10.1007/s10680-005-2610-... ), ou sem ela (Scavone, 2001Scavone, L. (2001). Maternidade: Transformações na família e nas relações de gênero. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, 5(8), 47-59. doi:10.1590/S1414-32832001000100004https://doi.org/10.1590/S1414-3283200100... ), ou abordagem indutiva mais (Seaver et al., 1990Seaver, W., Kirchner, E., Straw, M., & Vegega, M. (1990). Parenthood motivation questionnaire. In C. A. Beere, Gender roles: A handbook of tests and measures (p. 290-292). Westport, CT: Greenwood.) ou menos abrangente (O"Laughlin & Anderson, 2001O"Laughlin, E. M., & Anderson, V. N. (2001). Perceptions of parenthood among young adults: Implications for career and family planning. American Journal of Family Therapy, 29(2), 95-108. doi:10.1080/01926180152026098https://doi.org/10.1080/0192618015202609... ). Adicionalmente, esta revisão de estudos acerca das motivações subjacentes à decisão de ter ou não filhos denota um conjunto de fragilidades relativamente às amostra usadas, uma vez que a maioria dos estudos tem-se focado em amostras exclusivamente ou maioritariamente femininas (Cunha, 2007Cunha, V. (2007). O lugar dos filhos: Ideais, práticas e significados. Lisboa, Portugal: Imprensa de Ciências Sociais.; O"Laughlin & Anderson, 2001O"Laughlin, E. M., & Anderson, V. N. (2001). Perceptions of parenthood among young adults: Implications for career and family planning. American Journal of Family Therapy, 29(2), 95-108. doi:10.1080/01926180152026098https://doi.org/10.1080/0192618015202609... ) ou então em amostras de estudantes universitários (O"Laughlin & Anderson, 2001O"Laughlin, E. M., & Anderson, V. N. (2001). Perceptions of parenthood among young adults: Implications for career and family planning. American Journal of Family Therapy, 29(2), 95-108. doi:10.1080/01926180152026098https://doi.org/10.1080/0192618015202609... ; Seaver et al., 1990Seaver, W., Kirchner, E., Straw, M., & Vegega, M. (1990). Parenthood motivation questionnaire. In C. A. Beere, Gender roles: A handbook of tests and measures (p. 290-292). Westport, CT: Greenwood.). Uma exceção é o estudo de Liefbroer (2005Liefbroer, A. C. (2005). The impact of perceived costs and rewards of childbearing on entry into parenthood: Evidence from a panel study. European Journal of Population, 21(4), 367-391. doi:10.1007/s10680-005-2610-yhttps://doi.org/10.1007/s10680-005-2610-... ) com jovens adultos seguidos longitudinalmente, no entanto, só foram abordados um número muito limitado de motivos.

Neste sentido, desenvolver um instrumento breve e adaptado ao contexto atual, que permita aferir, tanto os custos de ter um filho como os seus benefícios, com um grupo heterogéneo quanto ao nível educativo, estatuto parental e estatuto conjugal, junto de homens e mulheres pode permitir uma compreensão mais abrangente da temática da intenção de ter filhos. De fato, as razões apontadas para ter ou não ter um primeiro, um segundo filho ou até um terceiro filho poderão ser distintas. Como Stöbel-Richeter et al. (2005Stöbel-Richter, Y., Beutel, M. E., Finck, C., & Brähler, E. (2005). The "wish to have a child", childlessness and infertility in Germany. Human Reproduction, 20(10), 2850-2857. doi:10.1093/humrep/dei121https://doi.org/10.1093/humrep/dei121... ) evidenciaram, casais já com filhos manifestam maior intenção de ter filhos do que casais sem filhos, sendo que nos casais sem filhos, a mulheres manifestam maior intenção do que os homens de ter o primeiro filho. Quanto aos motivos subjacentes a esta intenção, a percepção de benefícios não parece ser afetada pela experiência de parentalidade, enquanto que a percepção de custos é superior nos indivíduos que são pais (O"Laughlin & Anderson, 2001O"Laughlin, E. M., & Anderson, V. N. (2001). Perceptions of parenthood among young adults: Implications for career and family planning. American Journal of Family Therapy, 29(2), 95-108. doi:10.1080/01926180152026098https://doi.org/10.1080/0192618015202609... ). Ora estudos que analisam o papel do estatuto parental na motivação para ter ou não filhos são ainda escassos.

Parece assim haver a necessidade de um instrumento de análise das motivações face à parentalidade que tirando partido das vantagens dos estudos anteriores, abranja custos e benefícios, seja passível de utilização junto de homens e mulheres de diferentes meios sociais, com e sem filhos e que seja breve, de forma a poder ser facilmente aplicado em diferentes contextos. O objetivo deste estudo foi descrever a construção e validação de um instrumento em língua portuguesa para análise dos motivos subjacentes à decisão de ter ou não ter filhos.

Método

Participantes

Para participar neste estudo, os individuos deveriam ter mais de 18 anos, podendo coabitar ou não com companheiro/a. No total participaram 403 individuos (45% do sexo masculino) com a idade média de 36 anos. A maioria dos participantes (61%) é casada ou vive em união por consenso e não tem filhos (60%). Quanto a intenções futuras, 50% gostaria de ter um filho (o primeiro ou um outro). Sessenta por cento dos indivíduos possui habilitações inferiores ao 12º ano e a maioria (56%) despende 40 horas ou mais em atividade profissional, sendo que 35% despende entre 21 a 39 horas em atividade profissional. Quanto ao nível sócio-economico 33% pertence ao nível baixo, 40% ao nível médio e 26% ao nível alto.

Os participantes foram aleatoriamente divididos pelos dois estudos: redução de itens (n = 201) (estudo 1) e confirmação da estrutura da escala (n = 202) (estudo 2).

Instrumentos

Os instrumentos utilizados foram:

Questionário sociodemográfico: foram recolhidas informações relativas ao sexo, idade, estado civil, existência ou não de filhos e número de filhos, intenção de ter um (outro) filho, habilitações literárias, actividade profissional e número de horas despendidas na actividade profissional.

Versão preliminar da escala de motivos face à parentalidade: uma versão preliminar da escala de motivos face à parentalidade com 52 itens foi administrada. A escala era introduzida por um pequeno texto onde se referia à necessidade do participante definir o seu grau de concordância com um conjunto de motivos para ter e não ter um filho, independentemente do seu desejo atual. Os itens deviam ser respondidos numa escala de tipo Likert de 6 pontos de "discordo totalmente" a "concordo totalmente".

O primeiro passo para a construção deste novo instrumento compreendeu a identificação de dimensões de custos e benefícios e razões para ter ou não um filho, a partir da revisão de estudos. Seguindo as perspetivas de Liefbroer (2005Liefbroer, A. C. (2005). The impact of perceived costs and rewards of childbearing on entry into parenthood: Evidence from a panel study. European Journal of Population, 21(4), 367-391. doi:10.1007/s10680-005-2610-yhttps://doi.org/10.1007/s10680-005-2610-... ) e O"Laughlin e Anderson (2001O"Laughlin, E. M., & Anderson, V. N. (2001). Perceptions of parenthood among young adults: Implications for career and family planning. American Journal of Family Therapy, 29(2), 95-108. doi:10.1080/01926180152026098https://doi.org/10.1080/0192618015202609... ) sistematizaram-se as seguintes categorias de benefícios ou recompensas pelo facto de ter um filho: recompensas sociais (obtenção de estatuto de adulto e conformidade a normas sociais); emocionais/psicológicas (sentimentos de competência, desenvolvimento pessoal, melhor qualidade da relação conjugal) e econômicas (os filhos podem ser cuidadores mais tarde dos próprios pais), e os seguintes custos: econômicos (menor poder econômico) e perda de oportunidades profissionais e pessoais.

Procedimento

Coleta de dados. Após o consentimento dos participantes no estudo, o questionário sociodemográfico e a escala de motivos face à parentalidade foram administrados de forma individual aos participantes.

Análise dos dados. A versão preliminar da escala de motivos face à parentalidade foi alvo de uma análise factorial em componentes principais (estudo 1) e de uma análise de validação da estrutura factorial através de procedimentos de estimação de máxima verosimilhança (estudo 2).

Considerações Éticas

Os participantes do estudo foram esclarecidos quanto aos objetivos da investigação, tendo sido informados de que a participação era voluntária e a confidencialidade e anonimato dos dados recolhidos assegurada. Aqueles indivíduos que consentiram participar preencheram o questionário na presença do investigador para que este pudesse prestar os esclarecimentos necessários.

Resultados

Redução de Itens: Estudo 1

Tendo em conta o tamanho da amostra e o facto da escala aplicada englobar dois posicionamentos distintos, um face aos motivos para ter e outro face aos motivos para não ter um filho, foram efetuadas duas análises fatoriais exploratórias, uma relativa aos motivos para ter e outra relativa aos motivos para não ter filhos.

A adequabilidade da amostra à análise factorial exploratória (componentes principais) foi verificada através do índice de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO = 0,914) e da análise da diagonal da matriz anti-imagem (> 0,83) o que sugeriu que as variáveis estavam correlacionadas e a análise factorial era fortemente recomendada (Field, 2005Field, A. (2005). Discovering statistics using SPSS (2nd ed. ). London, England: Sage.). Assim, os 31 itens relativos a motivações para ter filhos foram sujeitos a rotação varimax, e método de extracção dos factores por componentes principais, considerando como critério de extração de fatores um valor próprio superior a 1,5.

Da análise da escala motivos a favor da decisão de ter um filho resultaram 3 fatores com uma variância total explicada de 52,89% (20,86% no primeiro fator, 16,52% no segundo e 15,51% no terceiro).

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Após análise do ponto de inflexão do gráfico scree plot verificou-se que poderia ser considerado quer uma solução em três, quer em dois fatores. Deste modo, efetuou-se também uma análise fatorial em dois fatores que explicaram 47,80% da variância (24,29% no primeiro fator e 23,51% no segundo). Uma análise dos conteúdos dos itens permitiu verificar que a solução em dois factores agregava a noção de continuidade geracional e biológica e questões relativas à pressão social ou cumprimento de expectativas sociais que, na solução em três factores, surgiam como independentes. No entanto, uma vez que estes dois aspectos se aproximam da noção de pressão externa e social e se encontravam correlacionados (r = 0,773; p Costello e Osborne (2005Costello, A. B., & Osborne, J. (2005). Best practices in exploratory factor analysis: Four recommendations for getting the most from your analysis. Practical Assessment Research & Evaluation, 10(7). Recuperado de http://pareonline.net/getvn.asp?v=10&n=7), procedeu-se a uma seleção dos itens nesta solução em função dos seguintes critérios: comunalidades superiores a 0,400, saturação no fator pretendido superior a 0,500 e diferença de saturações desse item nos restantes fatores superior a 0,200. Quinze itens não cumpriram tais critérios e foram por isso rejeitados. Uma nova análise foi efetuada para determinar se a eliminação destes itens melhorava e simplificava a estrutura fatorial. De fato, a variância total explicada aumentou para 55,16%. O primeiro fator foi assim designado por Enriquecimento Emocional e é composto por 8 itens de motivos relacionados com manifestação de afeto e carinho e desenvolvimento e desafio pessoal (α = 0,89), enquanto o segundo fator designado Reconhecimento Social compreende 8 itens relativos a motivos de cumprimento de expectativas sociais e continuidade familiar (α = 0,87) (Tabela 1).